quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Violinista e os Passantes


Por muito tempo ouvira somente a sua própria música. Correra para dentro de si mesmo e não se importou. Não quis se importar. Nas longas horas de sono já não ia a lugar algum, esquecera por onde chegar até os seus velhos caminhos.

Só agora ele percebia quanto tempo passara longe daquele lugar. A ventania agora açoitava seus jardins sem nenhuma piedade, suas flores estavam secas, seus céus, antes roxos, estavam nublados. As estrelas pareciam ter sido apagadas, ou, caíram todas.
De certo modo ele tinha medo de voltar à cabana Além da Lenda. Seu lar não cheirava mais aos seus livros preferidos, a lareira encontrava-se tão fria que parecia até cômico vê-la daquele modo, tão idiotamente posta. A criatura inominada que sempre tocara seu antigo piano dormia longamente em seu berço de cristal. Talvez esperasse que ele chegasse de onde prometera voltar para lhe pedir que tocasse as doces notas de Claire de Lune ou algo que não conhecia, algo que ecoasse do futuro.
E viu da janela da Torre de Marfim seus campos de flores de papel destruídos, um pouco chamuscados, esquecidos. Não sabia mais onde colher suas rosas negras e as estrelas que caíam e se acumulavam em seu jardim, agora não passavam de vaga-lumes cansados. Não ouvia mais os sorrisos, as juras de amizades ou mesmo os planos de outrora. A Velha Faia secara, ela também não podia mais ouvir, perdera seu viço. Já estava cansado de andar pelo Seu Mundo e ver, a cada novo passo, a destruição que se instalara. Há muito tempo partira, deixou seu próprio lugar como se fugisse, tentou esquecê-lo, escondê-lo debaixo de seu travesseiro.
O queria muito de volta, isso é certo, mas sabia que jamais seria como antes. O que nunca mudou, ele sabia, era Manuela que continuava a dedilhar divinamente a sua harpa. E quando entrou pela soleira da porta ela apenas o olhou com ar de saudade e o abraçou com delicadeza. E chorou. Ele nunca quis aquilo...
Ela simplesmente o disse: “Esqueça o que se passou” e com índole cálida concluiu: “Continue a caminhar, sei que você vai encontrar o que procura”. E ele foi. Porém estava assustado. Estava frio e escuro, as fadas já não dançavam mais e as estranhas luzes no bosque já não existiam mais. Caminhou a noite inteira e ninguém veio... Seus ouvidos doíam, seus pés estavam cansados demais.
Naquele momento sentou-se na grama puída e admirou as planícies inabitadas. Dali podia ver tudo. O mar revolto bem ao longe, os penhascos secos onde já não se deitavam as cachoeiras sem fim, sua cabana, singelamente repousando em sua colina envolta em brumas.
Tudo se perdeu...”, lamentou-se.
E então, quando o sol pálido despontava no horizonte ele viu alguns vultos, sombras, reflexos... Não sabia. Alguns ele até podia ouvir e eles não se importavam com a destruição do Seu Mundo. Ele sabia exatamente quem era cada um deles, mas agora, não o percebiam e nem sentiam Seu Mundo. Eram apenas passantes.
Aquelas presenças o lembravam de muita coisa... Ele não queria ter que ficar lembrando. Dói lembrar e dói esquecer. E então ele dormiu novamente, mas não fora de Seu Mundo. Ele tinha voltado.

1 pessoas se inspiraram:

Júlia disse...

você tem ciência que teu titulo difere horrores do post, era o que eu ia dizer, mas depois parei e pensei e ne? estamos aí pra entender quando parece abstrato demais.
agora eu sei tanto como você se sente que chega me dar vergonha de todas as vezes que briguei por causa disso.
agora eu sei o que é não entenderem.
agora eu gostaria de pedir desculpas e dizer que mesmo que não fique igual antes, é certo reconstruir o seu mundo. eu posso tingir o céu de roxo por você e fazer chover.